Horta de outono: o que semear e plantar em setembro e outubro

Setembro é o mês em que muita gente dá a horta por encerrada. Arranca-se o tomateiro, apanha-se o que resta do feijão, e o terreno fica à espera da primavera.

O outono no Norte tem condições que faltam em julho. Chove, o solo ainda está quente da estação anterior, e há um conjunto grande de culturas que preferem exatamente isto. Alho, cebola, couves e favas entram na terra agora e dão colheita numa altura em que quase não há nada no quintal.

Primeiro o solo

Retire os restos das culturas de verão antes de semear seja o que for. Se apanharam míldio, alternária ou oídio, esse material não deve ir para o compostor caseiro, porque uma pilha doméstica raramente atinge e mantém temperatura suficiente para destruir os agentes patogénicos.

Se nunca fez análise de terra, é agora. Os solos graníticos do noroeste tendem para o ácido, e com pH baixo o fósforo fica pouco disponível para a planta, por muito adubo que se aplique. Se houver calcário a aplicar, aplique-o cedo: precisa de humidade e de tempo para reagir com o solo, e em março já não chega a tempo da campanha.

Uma ressalva sobre correções. Nem todas as culturas querem o mesmo pH. O morangueiro, por exemplo, dá-se em solo ligeiramente ácido e não beneficia de calagem pesada. Corrija com um destino em mente.

Matéria orgânica: estrume bem curtido ou composto maduro. Estrume fresco não entra em canteiros que vão receber raízes ou alho. O alho, em particular, não se dá com matéria orgânica fresca e funciona melhor como cultura intermédia numa rotação.

Depois há a drenagem, que é o que mais horta estraga por estes lados e o que menos se resolve. No inverno do Minho e do Tâmega, o que mata a planta não costuma ser o frio, é a raiz debaixo de água durante semanas seguidas. Canteiros levantados 15 ou 20 cm mudam o resultado do alho e da cebola mais do que qualquer adubo.

O que semear e plantar

Setembro, sem grande margem para adiar

Brócolos, couve-flor e alho-francês, por transplante. Cenoura, por sementeira direta.

Estas ainda apanham calor suficiente para arrancar em condições. A partir de outubro passa a depender muito da variedade: há cultivares de brócolo e de couve-flor pensadas para sementeira mais tardia, e outras que não vingam. As embalagens indicam o período, e nisto vale mais ler do que adivinhar.

Setembro e outubro, à vontade

Couves de folha, como a galega, a penca e a lombarda, mais a alface de inverno e a chicória, por transplante. Nabo, nabiças, grelos, espinafres, rúcula, agrião, mostarda e rabanete, por sementeira direta. Cebola, por sementeira em viveiro para transplantar mais tarde, ou por plantação de cebolo.

É o grupo mais generoso e o melhor para quem está a começar. As folhas de corte germinam depressa e permitem colher em poucas semanas.

A partir de outubro

Favas e ervilhas, por sementeira direta, com tutor no caso das ervilhas. Alho, por plantação de dentes. Morangueiro, por plantação.

Alho: a janela é maior do que se pensa

Em Portugal, a plantação mais corrente faz-se em novembro e dezembro, para colher em julho, mas o alho pode ser plantado entre setembro e janeiro. Outubro cai bem dentro dessa janela, sem ser a única hipótese.

O que o alho precisa depois de plantado é de frio no solo. Sem esse período, a planta desenvolve folha e uma raiz única, sem se dividir em dentes. É essa a razão pela qual a plantação de outono e de inverno resulta e a de verão não.

Compassos correntes: 25 a 30 cm entre linhas e 10 a 15 cm na linha. Em cultivares de bolbo pequeno pode reduzir-se bastante mais na linha. Compassos mais largos tendem a favorecer bolbos de maior calibre. Os dentes enterram-se com a ponta para cima, a poucos centímetros de profundidade.

Sobre o alho de supermercado. Diz-se com frequência que vem tratado para não germinar. É plausível e há muitos relatos, mas não encontrei fonte técnica portuguesa que o confirme, por isso deixo o argumento que se sustenta sozinho: alho de consumo não tem garantia sanitária, pode trazer doença para o seu terreno e nem sempre é de variedade adaptada. Alho destinado a semente resolve as três coisas.

Não repita alho no mesmo canteiro em anos seguidos. As recomendações de rotação para esta cultura são longas, e há quem aponte vários anos de intervalo.

Cebola

Duas vias possíveis. Sementeira em viveiro em setembro e outubro, com transplante no fim do inverno. Ou plantação direta de cebolo, mais rápida e mais segura para quem tem pouca área e pouco tempo.

Em qualquer das duas, atenção ao azoto. Cebola sobrealimentada faz rama vistosa e bolbo pequeno, que ainda por cima conserva mal depois da colheita.

Morangueiro

Planta-se no outono, com a maioria das referências a apontar para o período entre outubro e novembro. A ideia é dar à planta o inverno inteiro para enraizar, de forma a chegar à primavera já instalada. Também há quem plante no fim do inverno, mas nesse caso a planta tem bastante menos tempo para se estabelecer antes de lhe ser pedida produção.

Duas decisões importantes acontecem antes de a planta ir para a terra. O solo quer estar ligeiramente ácido, na ordem dos 5,5 a 6,5 de pH. E não se planta morangueiro onde já esteve morangueiro, tomate, batata ou pimento, porque partilham o verticílio, um fungo de solo que fica anos à espera.

Os camalhões altos, com o topo arredondado para não acumular água, são a forma habitual de resolver a drenagem nesta cultura.

O que vem com as chuvas

Lesmas e caracóis tornam-se o problema principal assim que a humidade sobe. Uma linha de alfaces ou de couves acabadas de transplantar pode desaparecer numa noite. As duas semanas seguintes a cada transplante são as críticas.

Chuvadas fortes deslocam sementeiras finas, como as de cenoura ou de nabo. Uma cobertura leve de composto peneirado ajuda a segurar a semente no lugar.

As primeiras geadas podem chegar em novembro nas zonas mais altas do concelho. Alface, couve-flor e fava jovem agradecem manta térmica nas noites piores. Couves rústicas e alho aguentam sem ajuda.

O pulgão cinzento das couves aparece no outono com tempo ameno e é muito mais fácil de resolver no início. Virar folhas uma vez por semana chega para o apanhar cedo.

O canteiro que fica vazio

Solo descoberto num inverno chuvoso perde estrutura e nutrientes, e compacta.

Um adubo verde semeado agora resolve isso. Centeio, aveia, ervilhaca, tremocilha ou uma mistura. Corta-se e incorpora-se antes de florir, na primavera. Devolve matéria orgânica ao solo e, no caso das leguminosas, ainda fixa azoto.

Posso semear em setembro no Norte de Portugal ou já é tarde?

Setembro e outubro são das melhores alturas do ano para semear. O solo ainda está quente, começa a chover, e culturas como couves, nabo, espinafres e favas preferem estas condições às do verão.

Qual é a melhor altura para plantar alho?

Outubro, e pode prolongar-se por novembro. O essencial é ter solo bem drenado, porque o alho apodrece com facilidade em terreno encharcado.

Posso plantar alho comprado no supermercado?

É de evitar. Muito alho de consumo vem tratado para não germinar e pode transportar doença. Use alho destinado a semente.

Porque é que a minha cebola faz muita rama e bolbo pequeno?

Normalmente é excesso de azoto. A planta investe na folha em vez do bolbo, e o resultado conserva mal depois da colheita.

Devo aplicar calcário no outono ou na primavera?

No outono. O corretivo precisa de tempo e de humidade para reagir com o solo, e aplicado em março já não produz efeito na campanha em curso.

O que faço aos canteiros que ficam vazios no inverno?

Semeie um adubo verde, como centeio, aveia ou ervilhaca. Protege o solo da erosão, evita a perda de nutrientes e melhora a estrutura quando for incorporado na primavera.